Gestão compartilhada da água demanda engenharia

Por CREA-RN em 12/05/2017 às 05:48

O uso racional da água na produção de alimentos foi destaque da palestra do professor e pesquisador do Núcleo Estadual de Meteorologia e Recursos Hídricos da Fundação Universidade do Tocantins (UNITINS), José Luiz Cabral, na tarde do segundo dia do Preparatório da Engenharia e da Agronomia para o Fórum Mundial da Água, realizado em Manaus. Para ele, é fundamental monitorar preventivamente o volume das bacias hidrográficas, considerando os múltiplos usos dos recursos hídricos. “A água é usada em todos os processos de produção, seja vegetal, animal ou sintético. Para produzir um 1kg de carne bovina, por exemplo, precisa-se, em média, de 15.000 litros de água; para um 1 kg de frango, em média, 4.000 litros”.

De acordo com o especialista, a gestão compartilhada da água é uma solução capaz de proporcionar não apenas o monitoramento quanti e qualitativo dos recursos, mas permite ainda a planejamento integrado, inteligente e de alto nível das fontes, com avaliação de demanda e oferta. “Essa iniciativa envolve a atuação dos gestores, comitês e usuários, requer fiscalização e plano de bacias”, frisou o palestrante para quem os engenheiros têm papel fundamental nesse trabalho. “Precisamos de novos engenheiros que se dediquem ao estudo da hidrometria. Devemos dar a devida importância a esse recurso, que é uma grande commodity”.

Outro caminho que pode gerar bons resultados nesse cenário, segundo o pesquisador, é colocar em prática a Lei nº 9.433/1997, que institui Política Nacional de Recursos Hídricos. “Estamos cumprindo essa legislação que está vigente há 20 anos?”, instigou Cabral lembrando que o a legislação não recebe a devida atenção por parte dos entes públicos.

Hidrelétricas e suas consequências

Os impactos ambientais e sociais na tomada de decisões sobre grandes obras foram abordados por Philip Fearnside, que é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC). As hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, em Rondônia, por exemplo, causaram impactos à população de peixes, comunidades locais no Brasil e em países vizinhos.

O problema é ainda mais amplo quando se pensa que o uso crescente de energia elétrica tem demandado a ampliação de barragens e de investimentos públicos. “Estima-se que os chuveiros elétricos instalados sejam responsáveis pelo consumo de cerca de 5% de toda a eletricidade produzida no Brasil e por aproximadamente 18% da demanda de pico do sistema elétrico nacional. Para cada chuveiro instalado pela população com um investimento de aproximadamente R$ 30, o setor elétrico brasileiro tem que investir entre 2 reais e 3 mil reais para fornecer a nova energia demandada”, ilustrou.

Ao defender fontes de energia que dependam menos de recursos hídricos, Fearnside apresentou a seguinte conta do que acontece no Brasil: “Pelas longas linhas de transmissão que saem das hidrelétricas brasileiras perde-se 20% da energia, enquanto na Argentina perde-se somente 8%. A solução é transmitir em extensões mais curtas, ou ainda investir em outras alternativas que sejam mais sustentáveis e econômicas”, sugeriu.

Contaminação de águas subterrâneas na Amazônia

Boa parte das águas subterrâneas existentes na bacia Amazônica sofre algum tipo de contaminação. O alerta foi feito pela coordenadora do curso de Meteorologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Jamile Dehaini, durante palestra “Métodos Geofísicos aplicados à Hidrogeologia e contaminação de Águas Subterrâneas”.

Segundo a palestrante, é na bacia Amazônica que se encontra as maiores formações detentoras de água subterrânea do mundo que, por sua vez, estão inseridas no volume de água doce do planeta, cujo percentual em relação ao total de recursos hídricos disponíveis no planeta representa em torno de 3%.

Por se tratar de uma região de grande volume de águas superficiais, a problemática envolvendo as águas subterrâneas chega a passar despercebida. “Falar de água subterrânea em uma região onde está localizada a maior bacia hidrográfica do planeta causa estranhamento, porém, são diferentes as fontes de contaminação dessas águas subterrâneas tanto na área urbana quanto na rural, gerando sérios problemas, com impacto inclusive na saúde populacional”, ressalta Dehaini.

A coordenadora explica que existe heterogeneidade no comportamento desses aquíferos e é imprescindível conhecer a fonte contaminante a fim de nortear ações necessárias. Métodos modernos com base na Geofísica, como é o caso da Eletrorresistividade e do Eletromagnético indutivo, podem ser aplicados nas investigações pela definição das fontes de contaminação de tal maneira a conseguir resultados mais precisos. Ela defende ainda a necessidade de maior preocupação com a gestão dessa fonte de recursos.

Sustentabilidade no fornecimento de água

A agenda da quinta-feira (11) foi encerrada com a palestra “Sustentabilidade no fornecimento de água: a importância de utilização da rede pública de abastecimento e a preservação da água do aquífero subterrâneo em Manaus”, ministrada por Pedro Scazufca, especialista nas áreas de pesquisa econômica, regulação, infraestrutura e modelagem de negócios, em parceria com engenheiro civil Álvaro Menezes.

A apresentação expôs em linhas gerais os usos prejudiciais dos recursos hídricos em Manaus e apontou soluções viáveis de sustentabilidade para a capital. “O objetivo da nossa palestra é buscar conexão entre sustentabilidade e prestação de serviços de saneamento”, comentou Menezes.

Como exemplo de problemas relacionados à utilização incorreta da água subterrânea na região, o engenheiro listou as seguintes consequências ambientais: rebaixamento do manancial em função da retirada da água em poços e poluição do lençol freático, especialmente quando a água contaminada dos igarapés infiltra no lençol e polui reservas subterrâneas.

Complementado a fala de Menezes, o especialista Scazufca relacionou uma série de problemas decorrentes do mau uso da fonte hídrica. “Causa danos ambientais, risco para a saúde, elevação de custos operacionais e maior custo para os usuários”, listou. Sobre esses dois desdobramentos, Scazufca explicou que as consequências econômico-financeiras estão relacionadas à baixa adesão da população ao sistema de água e esgoto, o que onera a conta daqueles que estão ligados ao sistema. “Essa é uma realidade em Manaus, onde muitos habitantes não estão conectados ao sistema de saneamento”. De acordo com Scazufca, essa sobrecarga financeira é explicada porque são muito altos os custos fixos dos serviços de saneamento, como a infraestrutura e manutenção. Os custos variáveis, entre eles produtos químicos e energia, também são caros. A conta otimista que se faz é de que, quanto maior a adesão ao sistema, menor o custo por habitante. Sobre isso, o especialista lembrou que em muitos municípios embora exista a estrutura de saneamento, parte da população não se conecta a ela, o que impacta na sustentabilidade econômico-financeira do sistema público de saneamento.

No caminho das soluções, Scazufca traçou alternativas viáveis para o contexto manauara. “Maior envolvimento da sociedade na gestão dos recursos hídricos, gestão integrada dos serviços públicos de saneamento, aumento da adesão à rede pública, rigor na fiscalização de fontes alternativas, combate a irregularidades e investimento em uso racional da água são algumas sugestões”, sugeriu.

Confira as palestras apresentadas durante o evento:

Texto: Equipe de Comunicação do Confea e do Crea-AM

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